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Como aproximar empresas e universidades em Portugal? Uma visão de fora

Ricardo Caldeira 
Passei o verão de 2004 na Faculdade de Medicina Veterinária em Lisboa a isolar e caracterizar celulases para o meu trabalho de fim de curso. As celulases são uma família de proteínas que facilitam a degradação de celulose e que, por isso mesmo, têm diversas aplicações práticas - no sector agro-alimentar, na formulação de detergentes, na indústria do papel, nos biocombustiveis e empresas farmacêuticas.

Foi um trabalho interessante, mas fez-me perceber que não estava ali o meu futuro: ficou-me na memória uma acesa discussão (leia-se, autêntica “peixeirada” nos vazios corredores da Faculdade) entre dois professores, sobre uma candidatura a fundos de investigação. As frases “(...) mas tu tinhas prometido que não te candidatavas a esta bolsa! Esse dinheiro era para o meu grupo!!” marcaram-me, e foi este o inicio da germinação da ideia que não queria continuar em Portugal, num emprego precário de investigação e dependente de bolsas... por muito interessante que fosse.

Empresas que investem em inovação envolvidas em programas colaborativos, por país, 2012 (% de empresas que investem em produtos ou processos inovadores), in Eurostat
Acabado o curso tive oportunidade de fazer o doutoramento em Portugal, mas, sensibilizado pelo episódio acima descrito, e sem perspectivas de ver o meu trabalho sair do ambiente académico e directamente aplicado à vida real, fiz-me emigrante. Apontei baterias para o Reino Unido, pela reputação que tem em investigação e desenvolvimento (I&D) e pela facilidade da língua. O meu primeiro emprego, como químico de desenvolvimento numa pequena empresa, só foi possível graças a uma parceria existente entre o governo Escocês e PMEs que fazem I&D. No período em que lá trabalhei, a desenvolver um novo tipo de reactor químico de produção em contínuo, perguntei-me muitas vezes porque é que não encontrei oportunidades destas em Portugal.

Passados uns meses o dono dessa pequena empresa, que era também professor universitário, ofereceu-me um lugar de doutoramento com o objectivo de desenvolver o nosso produto para aplicações farmacêuticas. Mais uma vez, o doutoramento foi custeado em parceria com o governo Escocês. Foi neste meio que dei os meus primeiros passos na industria farmacêutica. Hoje em dia sou gestor de projectos numa das maiores empresas farmacêuticas do mundo, e aquela pequena empresa que primeiro me acolheu continua a crescer e a beneficiar do trabalho que desenvolvi. Pergunto-me: Por que será que exemplos destes são tão escassos em Portugal?

Despesa em I&D, 2004 e 2014 (% do PIB), in Eurostat
Sem conhecer directamente a realidade portuguesa, mantenho-me minimamente informado junto dos meus colegas que não emigraram e também através da comunicação social. Atrevo-me a apontar dois factores para a diferença de realidades que conheci nos dois países: - A primeira, e mais palpável, reside no diferencial de investimento existente no que concerne à colaboração empresarial e no investimento dos respectivos países em investigação. Em Portugal, a percentagem de empresas ligadas à inovação que apostam em programas colaborativos cifra-se em menos de 20%; no Reino Unido, este número aproxima-se dos 70%. Por outro lado, a despesa em I&D é cerca de 1.25% do PIB (aproximadamente 3 mil milhões de Euros) em Portugal, ao passo que no Reino Unido é cerca de 1.6% (aproximadamente 50 mil milhões de Euros). É uma diferença abismal.

[post_ad] - A segunda, e talvez mais profunda e preocupante, é a mentalidade da sociedade Portuguesa em relação à importância que a educação tem para o desenvolvimento económico e à aplicação do conhecimento científico no tecido empresarial. É sobejamente conhecida a falta de investimento por parte de sucessivos governos na educação... e também não é novidade a falta de mecanismos ou programas que facilitem a valorização e monetarização da excelente ciência que se faz em Portugal.

Em jeito de conclusão, começa a notar-se uma mudança de atitude com o surgimento nos últimos anos de novos centros de investigação e de excelência. São bons e louváveis exemplos, mas pecam por serem escassos. É o meu sonho (e sei que é um sonho partilhado com muitos colegas meus) ter a oportunidade de voltar ao meu país e poder retribuir o investimento que o país fez na minha educação, e também de contribuir com o conhecimento e experiência adquiridos “lá fora”.

Ricardo Caldeira
Gestor de Projectos na indústria farmacêutica, Reino Unido
Conteúdo fornecido por Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

Como aproximar empresas e universidades em Portugal? Uma visão de fora Reviewed by Notícias do Nordeste on quarta-feira, fevereiro 22, 2017 Rating: 5

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