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Os bons e os maus e o silêncio

|Hélio Bernardo Lopes|
O mundo tem assistido à campanha movida contra Donald Trump sob um alegado apoio da Rússia à sua eleição. No mínimo, por via de contactos e de informações sobre a sua adversária, Hillary Clinton. Informações que, a terem existido, teriam, naturalmente, de ser verdadeiras, mas que nunca foram até hoje averiguadas pelas mesmas autoridades que andam na peugada de Trump e dos seus apoiantes mais próximos.

Esta vitória de Donald Trump teve um aspeto deveras positivo, embora também possa tudo isso saldar-se num resultado de conteúdo nulo: mostrou ao mundo o que, de facto, sempre se soube, ou seja, que a dita democracia norte-americana se constitui num autêntico passador de malhas variadas e múltiplas. Hoje, como em tempos anteriores, o que vale é o que convém aos detentores do poder real, ou seja, da riqueza, mormente suportada no ambiente militar-industrial, domínio que muito preocupou Eisenhower, já pelos seus anos finais de vida.

Não sendo impossível que Donald Trump, ou gente da sua equipa em seu nome, tivesse mantido contactos com a Rússia de Vladimir Putin, já tem de considerar-se certo que os Estados Unidos sempre na sua história se determinaram a intervir na vida interna de Estados os mais diversos. E é até interessante constatar como os nossos herdeiros da luta contra Salazar e o Estado Novo tanto bramaram contra as chapeladas nas eleições da II República, e nunca se determinaram a apontar o dedo ao controlo total dos Estados Unidos sobre os poderes (ditos) soberanos de Itália, onde cada eleição foi sempre uma chapelada comandada pelos norte-americanos e sempre com o apoio das diversas organizações mafiosas e do próprio Vaticano.

Acontece, pois, que os Estados Unidos, com uma probabilidade próxima dos cem por cento, terão de ter uma mão por detrás da designada QUINTA ESTAÇÃO, aparente fundação destinada a gerir a campanha eleitoral de Alexei Navalny, naturalmente apoiado pelos Estados Unidos, qual verdadeiro cavalo de Troia.

Como eu mesmo escrevi a propósito do concurso sobre O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE, uma revolução tem o dever de se defender. E foi o que fez agora o Ministério da Justiça da Rússia, solicitando às autoridades competentes a dissolução daquela dita fundação. De resto, Alexei Navalny encontra-se impedido de concorrer às eleições presidenciais russas por razões que se prendem com a lei penal do país. Saberemos da decisão do tribunal demandado dentro de uma semana.

Como teria de dar-se, a QUINTA ESTAÇÃO dedica-se, entre outras atividades, a receber fundos em apoio a Navalny, sendo que o candidato Putin expôs já esta evidência: Navalny é o candidato preferido dos Estados Unidos. Neste caso, para os ocidentais, trata-se de uma ação antidemocrática das autoridades russas, ao passo que as análises à alegada intervenção russa nas eleições norte-americanas são absolutamente democráticas.

No meio de toda esta realidade verdadeiramente patética, aí está a cimeira dos chefes da diplomacia ocidental sobre a segurança e a estabilidade na península da Coreia, que hoje se iniciou em Vancouver. Tal como referiu a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, trata-se de uma reedição da consciência ou da mentalidade da Guerra Fria. Uma evidentíssima realidade. Uma cimeira em que se reunirão representantes dos países da coligação dos tempos da Guerra da Coreia, mas claramente inoportuna, uma vez que, há agora sinais de progresso no sentido do diálogo entre o Norte e o Sul na península da Coreia.

Finalmente, as recentíssimas palavras do Papa Francisco: receia a guerra nuclear. Podendo aceitar-se facilmente esta preocupação, surge-nos esta dúvida: será que alguém acredita que Kim Jong-un irá atacar quem quer que seja com armas nucleares? Sendo nula a resposta, há que colocar esta nova interrogação: e poderão ser os Estados Unidos a fazê-lo? Bom, aqui a resposta é já claramente afirmativa, até por serem os Estados Unidos o único país do mundo que atacou um outro, sem tal armamento, e já à beira de um colapso global. Ao Papa Francisco, porém, falta clareza no apontar do risco que o traz receoso. E que é feito das Nações Unidas e de António Guterres? Será que o leitor tem sabido de alguma sua novidade digna de registo, para lá do sepulcral silêncio e da cabalíssima falta de clareza política, de resto coisa muito antiga?

Os bons e os maus e o silêncio Reviewed by Notícias do Nordeste on sábado, janeiro 20, 2018 Rating: 5

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