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Pedir perdão não chega

|Hélio Bernardo Lopes|
Terminou a visita do Papa Francisco ao Chile. Uma visita conturbada, que permitiu perceber muita da incoerência, até falta de clareza, que este Papa vem mantendo nas suas tomadas de posição e nas consequentes ações.

A chegada de Francisco à liderança da Igreja Católica Romana teve lugar no momento em que o mundo tomava conhecimento do que, afinal, sempre soubera e por uma vasta legião de cidadãos do Planeta. O futuro do seu pontificado, portanto, iria ser de grande dificuldade.

A sua primeira atitude foi mostrar-se como alguém humilde, completamente fora do modo sublime como sempre se mostraram os seus antecessores. Conhecedor de que este Século XXI iria ser um século de descarte das pessoas, acompanhado da respetiva perda de dignidade, Francisco teria de mostrar, com o seu exemplo, o sentido do caminho que a Igreja teria de apontar e pelo qual, em princípio, se bateria através da palavra pontifical.

Acontece que a Igreja não se resume ao seu Papa, sendo antes constituída por milhares largos de ministros seus e de níveis os mais diversos, bem como dos povos que devem servir. Desde logo, através da materialização da doutrina trazida por Jesus e pelos evangelistas, mas por igual pelo seu mesmo exemplo.

Com dor e um custo que suponho grande, o Papa Francisco deu-se conta de que há um grupo de poder no seio da Igreja Católica Romana cujos interesses são muito difíceis de derrubar. Gente que se habituou a viver como autênticos príncipes, longe dos que esperam o seu serviço humilde e dedicado, alinhando, invariavelmente, com os grandes interesses estabelecidos à revelia dos povos e da sua essencialíssima dignidade. Também Francisco se deparou com os terríveis vícios vindos de longe e que, malgrado toda a sua vontade e energia, continuam vivos. É o que se passa com o caso dos abusos sobre gente pobre e sem meios, sobretudo desde muito crianças, mas por igual ao nível dos interesses que, naturalmente, se movimentam ao redor do dito banco do Vaticano – o Instituto para as Obras Religiosas (IOR).

Não se tem cansado o Papa Francisco de pedir perdão às vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja que lidera, mas a verdade é que não basta tal para que a paz chegue às consciências das vítimas de tais crimes. Têm estes de ser punidos, mas pelos tribunais que tratam estes crimes quando praticados por outros. Pedir perdão, como agora se viu ao vivo – a revolta é muito mais ampla –, não chega, até porque facilmente se percebe que, pelo caminho que a Igreja vem percorrendo, mesmo com Francisco à sua frente, tudo vai continuar como até aqui.

Depois, o nefando papel do tal banco do Vaticano – IOR –, naturalmente não compaginável com o papel da instituição e dos fins que prossegue de um modo universal. Ter mantido o IOR depois de quanto se veio a conhecer e a ser reconhecido, é como chover no molhado. Francisco poderia, como penso, ter dado um outro rumo ao suporte material da Igreja Católica Romana, mas nunca através da manutenção do IOR. Como se vai vendo, volta que não vota lá é despedido mais alguém do respetivo topo, sempre sem que se conheçam, publicamente, as verdadeiras razões.

E, por fim, o não reconhecimento explícito no que diz respeito à colaboração da Igreja Católica Romana com terríveis ditaduras, como se deu, precisamente, no Chile de uma ditadura sanguinária como a de Pinochet. E quem diz Chile, diz os restantes Estados onde ditaduras do estilo realizaram atos em tudo similares aos que se conheceram no Chile de Pinochet e da criminosa Junta Militar. Aqui sim, falta, explicitamente, pedir perdão pelo silêncio de Roma e pela sua concomitante colaboração com tais situações.

De resto, é de algum modo neste âmbito que Francisco acaba por reconhecer as injustiças praticadas desde há séculos contra os povos nativos dos lugares a que aportaram os navegadores europeus. Simplesmente, essas injustiças prosseguem, de novo sem que Roma erga a sua voz em defesa de uma resolução inteligentemente justa para a escroqueria que se instalou e prossegue. Haverá de compreender-se que, nestes domínios, nem o Papa Francisco se aproximou daquele mínimo que seria de esperar de si e do seu modelo de pontificado, que tanta esperança trouxe a tantos por esse mundo doente de hoje.

Pedir perdão não chega Reviewed by Notícias do Nordeste on terça-feira, janeiro 23, 2018 Rating: 5

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